Ainda a Batalha de Lagos de 1759

Sobre a Conferência realizada, umas breves considerações

Não obstante a qualidade técnica e científica da comunicação do arqueólogo Francisco Alves, sobre o espólio do Océan e os trabalhos realizados nos destroços do navio almirante francês, bem como sobre os navios de linha do período em apreço, o tema mais interessante, para mim, foi abordado por Maria Luísa Blot. Porém, quer porque uma simples palestra não permitiria aprofundar as várias questões, quer porque a distinta investigadora não se preparou suficientemente, a sua comunicação ficou muito aquém daquilo que eu esperava.
A tónica dessa comunicação, no que concerne à Batalha de Lagos, centrou-se na violação das águas neutrais portuguesas por parte da esquadra inglesa. Tónica incipiente para centrar uma comunicação sobre esta batalha.
Aflorada, numa simples referência, a hipótese de deserção de mais de metade da frota francesa não mereceu maior atenção, domage. A este respeito muito havia a debater, nomeadamente: Porque é que os capitães de Jean-François de la Clue não gostavam do seu comandante? Seria interessante explorar a ideia da razão que imperou à aparelhagem inicial de alguns dos navios que, depois, vieram a integrar a frota de La Clue. Será que os seus capitães/armadores esperavam partir rumo às américas em busca de proveitos pecuniários, ainda que aí aceitassem defrontar os ingleses; e ficado irritados por terem de integrar o plano de Bigot de Morogues para a campanha naval que pretendia levar a guerra à casa dos ingleses?
Pois porque é que, na noite de 17 de Agosto, desapareceram 8 navios sem razões fundamentadas para isso o que leva de la Clue ao protesto:“Seja por cobardia, seja por ignorância imperdoável, ou por uma fatalidade incompreensível, os capitães do Fantasque, do Lion, do Triton, do Fier e do Oriflame cuja posição era no centro da esquadra, bem como os capitães das três fragatas (cujo objectivo seria nunca perderem de vista o navio chefe), separaram-se da esquadra a meio de uma noite de Verão, em que não se verificava uma escuridão total, levados por um vento de Este (nunca violento no estreito canal), e sem que qualquer incidente atmosférico justificasse tal separação.” (da Carta de M. de La Clue a M. le comte de Merle, embaixador em Lisboa, datada de Lagos, 18 de Agosto de 1759). Segundo Cunat, Charles Marie, em L’Histoire du Bailli de Suffren, p. 28 a 31, Rennes 1852.
Esta carta, que não refere a “deserção” de Panat (Le Souverin) e Rochemore (Le Guerrier), ocorrida posteriormente, aponta para a extensão da Batalha para o dia seguinte, ao contrário do afirmado por alguns até há anos atrás (entre estes o próprio Francisco Alves), que a Batalha tinha ocorrido a 18 de Agosto.
Ainda segundo o biógrafo do M. de Suffren, o Ministro da Marinha M. Berryer pretendeu levar a Tribunal de Guerra todos os capitães de M. de la Clue. Não o terá feito para não criar atritos com a nobreza da Provença, à qual pertenciam esses capitães, bem como com a oficialidade geral da marinha de guerra francesa.
Por outro lado, verifiquei uma confusão estabelecida entre o Cabo de Santa Maria e o Cabo de S. Vicente, sugerindo a senhora, que as esquadras em conflito teriam cruzado Sagres e regressado à costa Sul algarvia, o que não é verdade, pois o Cabo de Santa Maria onde a Batalha se iniciou refere-se, como é óbvio, a Santa Maria de Faro. Também o desconhecimento da referência ao navio Kernosprit, citado, pelo menos, em duas fontes francesas (sendo uma delas a Histoire Maritime de la France, de Léon Guérin), decepcionou-me, ainda que a senhora tenha confessado não conhecer a biografia do Bailio de Suffren – que veio a ser um dos mais hábeis almirantes franceses -, embora o soubesse Tenente a bordo do Océan durante esta batalha. Seria interessante tentar determinar a que navio se referiam essas fontes quando o identificam como o navio para onde Boscawen se transferiu quando o navio almirante Namur ficou seriamente danificado. Ora o almirante inglês transferiu-se para o Newark, como consta nas fontes inglesas e nalgumas francesas.
E sobre as razões que terão levado os Ingleses a não respeitarem a neutralidade das águas portuguesas, deixo estas reflexões:
1 – É objectivo maior da armada inglesa, evitar, a todo o custo, a invasão das Ilhas britânicas por parte dos franceses.
2 – Que neutralidade? A Guerra dos Sete Anos foi um conjunto de conflitos internacionais decorridos entre 1756 e 1763, envolvendo, de um lado, a França, a Áustria e seus aliados (Saxónia, Rússia, Suécia e Espanha), e do outro a Inglaterra, Portugal, a Prússia e o principado de Hannover.
3 – Desforra de todos os recentes insucessos nas escaramuças navais ocorridas nos mares europeus e desforra também da Batalha de 1693 em que de Tourville infligiu pesada derrota a George Rooke, exactamente nos mesmos mares algarvios.
E sobre as razões que levam os portugueses a não prestarem apoio aos franceses, avento o seguinte:
1 – Portugal é um estado neutral, ou o veemente protesto do governo de Sua Majestade D. José I, junto da Inglaterra, redigido pelo punho do Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal, não terá passado de manobra para “francês ver” (?!).
2 – As baterias de costa portuguesas estariam em condições de fazer fogo?
Estes são apenas alguns aspectos do conflito que teve como líderes Sir Edward Boscawen e Jean-François de Bertet de La Clue-Sabran, que ficam, ainda, sem resposta.


Nota interessante aqui

1 comentário:

Vieira Calado disse...

Infelizmente estava muito calor...

e eu mal acomodado.

Mas sempre há quem faça o relato...


Abraço